Transição para processos industriais de baixo carbono

A transição para processos industriais de baixo carbono exige mais do que projetos pontuais de eficiência energética ou substituição de combustíveis. Requer governança climática e com base em dados concretos, sustentados por informações confiáveis e mensuráveis.

A discussão sobre descarbonização industrial no Brasil mostra que o país conseguiu reduzir as emissões totais de forma relevante em 2024. Porém, o setor industrial permanece em estabilidade.

Para que o país cumpra, ou supere a NDC (sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada) de 2025, a indústria precisará assumir um papel mais ativo na curva de redução.

A indústria no centro da equação climática

         Embora os processos industriais, diretamente, representem cerca de 4% das emissões brutas do país, o impacto do setor produtivo é significativo. Quando consideradas as emissões associadas ao consumo de energia, eletricidade e combustíveis, a participação da indústria pode chegar a aproximadamente 20% do total nacional.

         A descarbonização industrial não está ocorrendo na velocidade necessária para contribuir de forma decisiva para o cumprimento das metas climáticas. A estabilidade das emissões industriais indica que, enquanto o Brasil avança na agenda de uso da terra, a transformação estrutural da matriz produtiva ainda é um desafio em aberto.

         Os mercados internacionais estão ampliando cada vez mais as exigências em relação à rastreabilidade do GEE (Gases de Efeito Estufa). Cadeias globais priorizam fornecedores com inventários auditáveis. Nesse cenário, as indústrias precisam medir, gerenciar e auditar seus processos para ganhar espaço.

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Desafios para manter uma gestão estruturada e estratégica do GEE

         Estruturar um inventário de emissões é um passo importante e primordial, mas o verdadeiro desafio está na manutenção contínua estratégica dessa gestão ao longo do tempo. A gestão de GEE não pode ser considerada como um projeto pontual ou uma exigência para atender a uma auditoria específica; precisa ser integrada ao planejamento de governança corporativa e aos processos decisórios da organização.

         É preciso destacar que um obstáculo significativo nesse processo é a qualidade e a consistência dos dados. Metodologias industriais complexas envolvem múltiplas fontes emissoras, diferentes unidades operacionais, fornecedores diversos e sistemas de medição nem sempre padronizados. Garantir rastreabilidade, atualização periódica e confiabilidade das informações exige investimento em tecnologia, capacitação técnica e alinhamento interno.

         Outro ponto crítico é a integração entre as áreas. A gestão de carbono não é responsabilidade exclusiva da área ambiental; para ser completa, ela conta com engenharia, operação, manutenção, área de suprimentos, logística e, sobretudo, o apoio da alta liderança. É essencial o alinhamento transversal, pois sem ele, a estratégia de descarbonização tende a perder sua força e se fragmentar.

ISO 14064 como instrumento de maturidade e consolidação

         Se os desafios da gestão do GEE estão na consistência, integração e continuidade, é justamente nesse momento que a ISO 14064 se torna um diferencial estrutural.

Essa norma não se limita à elaboração de um inventário; ela estabelece critérios técnicos claros para definição de limites organizacionais, identificação de fontes emissoras, seleção de metodologias de cálculo, controle documental e rastreabilidade das informações. Essa padronização reduz subjetividades, aumenta a comparabilidade dos dados ao longo do tempo e fortalece a governança interna.

Ao aplicar a ISO 14064-1, a organização consolida um inventário corporativo robusto, capaz de sustentar decisões estratégicas. Já a ISO 14064-3, ao tratar da verificação independente, agrega credibilidade externa e reduz riscos reputacionais associados a inconsistências e fragilidades metodológicas.

Consolidação estratégica e competitividade industrial

         De acordo com as diretrizes apresentadas pela Confederação Nacional da Indústria, a agenda de baixo carbono integra de maneira crucial a estratégia de competitividade da indústria brasileira e global. A transição energética, o uso eficiente de recursos naturais e a modernização tecnológica são apontados como pilares para garantir a inserção internacional e a sustentabilidade econômica de longo prazo.

         A descarbonização deve ser encarada como investimento em produtividade, inovação e posicionamento estratégico. Indústrias que estruturam processos e medem sua gestão de GEE fortalecem sua capacidade de acessar mercados externos, atender a requisitos regulatórios emergentes e se posicionar de forma cada vez mais orientada por critérios ambientais.

         Nesse cenário, a ISO 14064 funciona como base para transformar diretrizes macroeconômicas em prática organizacional, conectando governança climática, eficiência operacional e credibilidade institucional.